COM NOVOS GOVERNANTES, O QUE TEMOS A DIZER SOBRE O SETOR FLORESTAL?

Com as eleições em andamento e a definição dos novos governantes, surge uma questão importante para o setor florestal brasileiro, e que merece a atenção de todos nós:

Se os novos governantes quiserem conhecer o setor florestal brasileiro, o que teremos a apresentar?

Temos um setor de enorme dimensão econômica, social e ambiental, com importantes conquistas, experiências acumuladas, conhecimento científico, capacidade produtiva e grandes oportunidades.

Temos também entidades competentes, lideranças experientes e representações legítimas, responsáveis por conquistas importantes em diferentes segmentos.

Mas será que estamos preparados para apresentar toda essa riqueza de forma integrada, com clareza, legitimidade e prioridades bem definidas?

Algumas perguntas merecem uma boa conversa:

1.⁠ ⁠Quem poderia apresentar, com legitimidade, o setor florestal brasileiro em toda a sua dimensão, respeitando a diversidade e a importância de seus diferentes segmentos?

2.⁠ ⁠Temos uma agenda comum, capaz de reunir as principais necessidades, oportunidades e propostas para o futuro?

3.⁠ ⁠Como somar as competências e a legitimidade das representações existentes, fortalecendo a capacidade de atuação conjunta?

4.⁠ ⁠Quais são os grandes obstáculos que limitam o desenvolvimento do setor e dependem de decisões governamentais?

5.⁠ ⁠Como ampliar as oportunidades para todos aqueles que participam das atividades florestais, independentemente de seu porte ou área de atuação?

6.⁠ ⁠Como transformar nosso conhecimento científico, nossa experiência e nossa capacidade produtiva em benefícios econômicos, sociais e ambientais ainda maiores?

7.⁠ ⁠Como construir políticas públicas de Estado, com continuidade e segurança para investimentos que exigem planejamento de longo prazo?

8.⁠ ⁠Afinal, quais seriam as grandes prioridades que apresentaríamos aos novos governantes?

Não faltam experiências, competências, entidades atuantes e bons exemplos. O desafio é encontrar caminhos para aproximá-los e valorizar aquilo que podemos construir juntos.

Não se trata de substituir representações, disputar espaços ou diminuir conquistas. Trata-se de reconhecer e somar competências, respeitar a legitimidade de cada representação e construir uma visão conjunta que fortaleça todo o setor florestal brasileiro.

Afinal, um setor com tamanha diversidade e importância não teria ainda mais força se suas diferentes representações e lideranças conseguissem apresentar, conjuntamente, suas grandes prioridades?

E fica a provocação:

Se reconhecemos a riqueza, a importância e as oportunidades do setor florestal brasileiro, por que não transformar essa diversidade de competências e representações legítimas em uma grande força institucional?

Com novos governantes, o que teremos a dizer? E, principalmente, o que poderemos construir juntos?

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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O FIO DO BIGODE SEMPRE TERÁ VALOR!

O chamado “fio de bigode” é uma expressão antiga para representar algo muito simples: o valor da palavra empenhada. Um compromisso assumido numa conversa e confirmado por um aperto de mão carregava a confiança de que aquilo que havia sido combinado seria cumprido.

Isso nunca significou dispensar contratos, registros ou controles. Eles existiam, eram necessários e respeitados. O fio de bigode acrescentava algo que nenhum documento conseguia garantir sozinho: a confiança em quem assumia o compromisso.

A silvicultura brasileira tem muito a contar sobre essa forma de relacionamento.

O fomento florestal é um bom exemplo. Milhares de produtores colocaram suas terras e seu trabalho em projetos que levariam anos até a colheita, enquanto empresas assumiam compromissos de apoio e de futura aquisição da produção. Tudo era formalizado, mas uma relação tão longa dificilmente teria prosperado sem confiança entre as partes.

Outro exemplo está na comercialização da madeira. Grandes volumes foram negociados envolvendo preços, prazos e condições de entrega. Os registros faziam parte das operações, mas quem viveu essas negociações sabe o peso que também tinha conhecer quem estava do outro lado e confiar na palavra dada. Há quem aposte que saber fazer essa escolha é uma arte — quase uma bênção!

O fio de bigode, portanto, não substituía os instrumentos formais. Somava-se a eles.

Os tempos mudaram. As empresas cresceram, os negócios ganharam escala e os instrumentos de gestão evoluíram, trazendo mais segurança e profissionalismo. Nesse processo, porém, as decisões também se tornaram mais distantes das relações em que a confiança é construída. O fio de bigode não perdeu seu valor — perdeu espaço para mostrá-lo.

E talvez seja justamente na terceirização, tão presente na silvicultura atual, que ele possa mostrar novamente toda a sua importância. Contratantes e prestadores assumem compromissos de longo prazo e enfrentam situações que nenhum contrato consegue prever inteiramente. Precisam confiar um no outro para fazer o negócio funcionar.

Por isso, na terceirização, o fio de bigode deveria ser uma das primeiras e mais importantes pontes entre as partes. Contratos e controles são indispensáveis, mas ganham força quando acompanhados do respeito à palavra empenhada.

E há bons exemplos mostrando que isso funciona. Relações em que modernos instrumentos de gestão convivem com a confiança demonstram que uma coisa não substitui a outra. Elas se completam — e ganha muito a silvicultura.

Talvez esteja aí um avanço importante: somar à modernidade da gestão algo muito antigo e que nunca deveria perder valor — a palavra empenhada.

Que os bons exemplos sejam reconhecidos e multiplicados. Eles mostram que modernidade, confiança e parceria podem caminhar juntas — e esse talvez seja um belo caminho para enobrecer ainda mais a silvicultura brasileira.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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SILVICULTURA 4.0 COM FEIJÃO E ARROZ

A silvicultura mudou muito. Incorporou tecnologia, sistemas de informação, imagens, drones, sensores, inteligência artificial, automação, monitoramento em tempo real e uma enorme capacidade de produzir e analisar dados.

Tudo isso representa avanço. E deve ser aproveitado.
Mas existe uma questão fundamental: como fazer toda essa modernidade chegar ao campo e se transformar em floresta bem formada, produtiva e competitiva?

Talvez a resposta esteja na integração entre duas silviculturas que, às vezes, parecem pertencer a mundos diferentes: a Silvicultura 4.0 e a velha e indispensável silvicultura do “feijão com arroz”.

Podemos dividir essa conversa, de maneira bem simples, em três partes: pensação, falação e fazeção.
A pensação envolve planejar, analisar, definir estratégias, estabelecer metas, acompanhar custos e produtividade, interpretar informações e decidir. É nesse espaço que a tecnologia moderna oferece recursos extraordinários. Hoje temos muito mais informações e instrumentos para planejar e tomar decisões melhores.

A falação também evoluiu. Reuniões, indicadores, painéis, apresentações, relatórios e sistemas permitem acompanhar operações, cobrar resultados, comparar desempenhos e comunicar rapidamente o que está acontecendo. Informação de qualidade e boa comunicação são indispensáveis à gestão moderna.

Mas existe a terceira parte — e talvez a mais importante: a fazeção.
É nela que a floresta realmente acontece.
E a fazeção pode e deve incorporar tecnologia. Pode usar aplicativos, máquinas modernas, georreferenciamento, controle digital, sensores e tudo aquilo que ajude a executar melhor.
Mas sua estrutura básica continua sendo surpreendentemente simples.

Preparar bem. Plantar bem. Adubar corretamente. Porrete nas formigas. Fazer a manutenção na hora certa. Corrigir rapidamente os erros. Acompanhar a qualidade. E não deixar para amanhã aquilo que a floresta precisava receber hoje.
Essa é a silvicultura do feijão com arroz.

Só que ela não acontece dentro de uma sala, de um computador ou de uma apresentação. Ela acontece com sol, chuva, poeira, barro e gente preparada no campo, e de “olho” em tudo!
Por isso, talvez o grande desafio não seja escolher entre a Silvicultura 4.0 e a silvicultura tradicional. É fazer com que uma fortaleça a outra. E aqui, ainda existe outro desafio. Em muitas regiões a fazeção, tem a participação significativa de terceiros. E transformar a terceirização, numa parceria confiável, é a única maneira de se otimizar a fazeção.
A tecnologia deve melhorar a pensação, facilitar a falação e, principalmente, aperfeiçoar a fazeção.

Quando isso acontece, temos uma silvicultura verdadeiramente moderna: aquela que usa toda a tecnologia disponível, mas não perde a capacidade de fazer muito bem o básico.
Porque podemos sofisticar os sistemas, modernizar o vocabulário e até colocar alguma fantasia na fazeção. Mas, no final, quem mede o sucesso não é a apresentação.
É a floresta.

E floresta boa continua exigindo uma receita que nenhuma revolução tecnológica conseguiu substituir:
tecnologia na cabeça, informação na gestão e muito feijão com arroz no campo.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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11 ANOS — E A CONVERSA CONTINUA


Em setembro de 2015, começamos uma conversa. Era o início da Comunidade de Silvicultura

Não havia um grande projeto, um programa definido ou a pretensão de ensinar silvicultura a ninguém. Havia apenas uma vontade: falar sobre aquilo que conhecíamos, ouvir outras experiências e aprender com quem pensava diferente.

E a conversa foi crescendo. Um texto trouxe uma pergunta. Uma resposta provocou outra opinião. Vieram concordâncias, discordâncias, novas ideias e novos assuntos.

E assim se passaram 11 anos.

Falamos de florestas, produtividade, custos, tecnologia, pesquisa, gestão, meio ambiente, empresas e políticas públicas. Mas falamos, sobretudo, de gente.

De quem pesquisa, planeja e administra. E também de quem, debaixo de sol, chuva, poeira e barro, faz a floresta acontecer.

Talvez esteja aí a maior riqueza da Comunidade de Silvicultura: nunca foi uma conversa de uma pessoa só.

Ao longo desses anos, muitos trouxeram conhecimento, experiência, dúvidas, críticas e sugestões. Cada participação ajudou a ampliar nossa visão e, muitas vezes, a repensar aquilo que parecia uma certeza.

É isso que comemoramos.

A floresta continua crescendo. A silvicultura continua mudando. E a nossa conversa continua!

Porque ainda há muito para observar, questionar, aprender e compartilhar.

A todos que participaram e continuam participando dessa caminhada, o nosso muito obrigado!

São 11 anos da Comunidade de Silvicultura.

Uma história construída por muitos — e com muita conversa ainda pela frente!

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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BALN – REFLEXÕES SOBRE O SETOR FLORESTAL BRASILEIRO

Há mais de cinco anos, Luiz Ernesto Barrichelo, Admir Lopes Mora , Walter de Paula Lima e Nelson Barboza Leite reúnem-se virtualmente, todas as quintas-feiras, das 18 às 19 horas, para conversar sobre questões relacionadas ao setor florestal brasileiro. Dessas reuniões nasceu o BALN – iniciais dos nomes de Barrichelo, Admir,Lima e Nelson. E já se foram mais de 150 reuniões!

Os encontros abordam temas como pesquisa, ensino, produção florestal, conservação, meio ambiente, políticas públicas, tecnologia, mercado, gestão e desenvolvimento social.

Ao longo desse período, mais de cinquenta convidados participaram das reuniões, entre professores, pesquisadores, empresários, dirigentes, técnicos e profissionais de diferentes áreas. Essas conversas permitiram ao grupo conhecer diferentes pontos de vista sobre a situação e os desafios do setor.

Entre os assuntos discutidos com maior frequência está a sua segmentação. O setor florestal brasileiro é formado por diferentes atividades e organizações, muitas delas com entidades próprias e formas específicas de representação. Essa estrutura atende às necessidades de cada segmento, mas nem sempre favorece uma visão integrada do setor.

Florestas plantadas, indústrias de base florestal, florestas nativas, conservação da biodiversidade, recuperação de áreas degradadas, produtores rurais, prestadores de serviços, pesquisa, ensino, tecnologia, bioenergia, carbono e serviços ambientais são algumas das atividades que fazem parte desse conjunto.

A partir das discussões realizadas, o BALN passou a considerar a aproximação entre esses diferentes segmentos como um tema que merece maior atenção.

A proposta não é criar uma nova entidade representativa nem substituir as organizações existentes. A intenção é contribuir para ampliar o diálogo entre instituições, empresas, universidades, profissionais e demais participantes do setor e favorecer uma compreensão mais abrangente de sua dimensão econômica, social e ambiental.

O BALN pretende, assim, dar continuidade às discussões iniciadas nesses encontros e buscar formas de transformar algumas das questões levantadas em propostas que possam ser compartilhadas e debatidas com outros participantes do setor florestal brasileiro.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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A PRODUTIVIDADE DO EUCALIPTO NÃO VIAJA PRONTA.

A produtividade das florestas de eucalipto varia muito entre regiões e até mesmo entre áreas de uma mesma propriedade. Clima, solo, disponibilidade de água, material genético, manejo e qualidade das operações silviculturais estão entre os fatores que ajudam a explicar essas diferenças.

Há, porém, uma questão histórica que nem sempre recebe a devida atenção.

As altas produtividades inicialmente anunciadas pela silvicultura brasileira foram alcançadas, principalmente, em regiões dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Foi nessas regiões que a pesquisa florestal se desenvolveu com maior intensidade, por meio de anos de experimentação, melhoramento genético, estudos de solo, adubação, espaçamento, manejo e controle de pragas e doenças.

Os excelentes resultados, portanto, não surgiram apenas das boas condições naturais. Foram construídos por décadas de pesquisa, observação e aperfeiçoamento das práticas silviculturais.

À medida que o eucalipto avançou para novas regiões, muitas vezes se tentou levar junto o mesmo pacote tecnológico. Entretanto, mudaram o clima, os solos, o regime de chuvas, a intensidade das secas e a ocorrência de pragas e doenças. Em vários casos, as produtividades diminuíram. Não necessariamente por falhas operacionais, mas porque a tecnologia transferida não estava suficientemente adaptada às novas condições.

Onde houve pesquisa, experimentação e acompanhamento técnico contínuo, os resultados evoluíram. Materiais genéticos foram substituídos, recomendações de adubação foram ajustadas e novos procedimentos de implantação e manejo foram desenvolvidos. Isso mostra que a produtividade não é simplesmente transportada de uma região para outra. Ela precisa ser novamente construída.

Nos dias atuais, a silvicultura está avançando ainda mais para áreas distantes dos centros tradicionais de pesquisa. São regiões com menor histórico florestal, condições ambientais diferentes e poucas informações sobre o comportamento do eucalipto ao longo de todo o ciclo.

Por isso, produtividades iniciais menores não deveriam causar surpresa. O problema começa quando estimativas otimistas são transformadas em garantia de produção antes que a pesquisa confirme sua viabilidade.

Materiais genéticos podem apresentar bom crescimento nos primeiros anos e, mais tarde, revelar limitações diante de secas prolongadas, solos restritivos, ventos, doenças ou outros fatores. Quando essas dificuldades aparecem, centenas ou milhares de hectares podem já estar plantados com base nas primeiras impressões.

A pesquisa e a experimentação fornecem indicações que precisam ser respeitadas. Testes iniciais são indispensáveis, mas não devem ser confundidos com respostas definitivas. Quanto menor o conhecimento sobre uma região, maior deve ser a prudência na escolha dos materiais, na definição das produtividades esperadas e na velocidade de expansão dos plantios.

Caminhar para novas fronteiras sem informação técnica suficiente é sempre um risco. A dimensão desse risco dependerá da necessidade de madeira, do volume de investimentos e, principalmente, da quantidade de hectares plantados antes de se conhecer o verdadeiro comportamento da floresta.

A silvicultura brasileira já demonstrou que consegue superar limitações e aumentar a produtividade em ambientes difíceis. Mas isso exige tempo, pesquisa, experimentação e capacidade para reconhecer que cada nova região precisa construir o seu próprio conhecimento.

A produtividade anunciada pode caber perfeitamente no planejamento. A grande questão é saber se ela também caberá na realidade do campo.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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O SUCESSO DA SILVICULTURA ESTÁ NA DIFERENÇA ENTRE OLHAR E ENXERGAR.

Uma mesma propriedade florestal pode contar histórias completamente diferentes. Tudo depende de quem a visita.

Há profissionais que percorrem uma área e, ao final da inspeção, concluem que está tudo em ordem.

Outros caminham pelos mesmos lugares e retornam com uma relação de providências. Não porque enxergaram uma propriedade diferente, mas porque aprenderam a interpretar os sinais que ela oferece.

A diferença não está na propriedade. Está na forma de observá-la.

Uma propriedade florestal é um grande painel de indicadores naturais. O solo, a água, as árvores, a biodiversidade, as estradas, os aceiros e até a forma como as pessoas trabalham revelam, silenciosamente, a qualidade da silvicultura praticada.

Mas essa leitura não acontece por acaso. Ela exige presença no campo, atenção aos detalhes, disposição para observar, analisar e agir. É esse hábito, repetido ao longo do tempo, que transforma experiência em conhecimento e conhecimento em boas decisões.

Quem desenvolve esse olhar dificilmente é surpreendido pelos problemas. Quase todos deixam pequenos avisos antes de crescer.

Na verdade, a propriedade não fala. Ela apenas emite sinais continuamente. O bom silvicultor é aquele que aprende a interpretá-los.

Ela parece perguntar:

– Você percebeu que aquela nascente precisa de maior proteção?

– Notou o início de um processo erosivo?

– Observou que aquelas árvores já não respondem como antes?

– Percebeu sinais de pragas ou doenças? E as formigas?

– Deu atenção ao pessoal de campo?

Muito antes dos drones, dos satélites, dos relatórios, dos gráficos e das planilhas, uma propriedade florestal já mostra quase tudo para quem sabe fazer essa leitura.

Esse costume de ir ao campo, observar, analisar e agir faz a diferença entre profissionais que apenas acompanham a rotina e aqueles que realmente conduzem a silvicultura.

É no campo que se formam os melhores silvicultores. Não apenas pelo que fazem, mas principalmente pelo que aprendem a enxergar.

Talvez essa seja uma das maiores habilidades de um silvicultor: transformar observações em decisões e sinais em ações.

Porque, no final, a propriedade mostra seus sinais para todos. Mas apenas alguns conseguem compreendê-los antes que se transformem em problemas.

Na silvicultura, os problemas raramente chegam sem avisar.

O que diferencia os bons profissionais não é apenas a capacidade de caminhar pela propriedade. É a capacidade de observar, interpretar e agir no momento certo.

Porque quem não aprende a observar talvez consiga plantar árvores. Mas dificilmente conduzirá uma boa silvicultura.

O clima, a genética e a tecnologia definem o potencial da floresta. Mas é o olhar do silvicultor, lá no campo, que percebe os sinais, toma as decisões e transforma esse potencial em resultados.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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OS FANTASMAS DA SILVICULTURA APENAS MUDAM DE ROUPA

Durante uma conversa entre profissionais do setor florestal surgiu uma observação curiosa:

— A silvicultura parece conviver com alguns fantasmas que nunca desaparecem. Eles apenas mudam de roupa.

Há algumas décadas, um dos grandes fantasmas era a qualidade das sementes. Quantas florestas foram implantadas com material genético de baixo potencial? A consequência era conhecida: povoamentos pouco produtivos, altos custos e enorme dificuldade para produzir madeira de forma competitiva.

A pesquisa respondeu ao desafio. Vieram as sementes melhoradas, os pomares clonais, os clones de alto desempenho e uma verdadeira revolução na produtividade das florestas brasileiras.

Mas o tempo passou.

Novas fronteiras florestais surgiram, os ambientes tornaram-se mais desafiadores e começam a aparecer sinais de que aquele velho fantasma apenas mudou de aparência. Os materiais genéticos que revolucionaram a silvicultura nem sempre evoluíram na mesma velocidade exigida pelas novas condições de cultivo. O problema continua existindo, agora com outra roupagem.

Outro fantasma que volta a dar sinais é o chamado apagão florestal.

Durante muito tempo, havia quem tratasse essa preocupação com certa tranquilidade. Afinal, existiam florestas excedentes, muitas vezes distantes das fábricas, capazes de suprir necessidades temporárias. Não era a situação ideal, mas dificilmente alguém ficava sem madeira.

Hoje o cenário é diferente.

As reservas diminuíram, a expansão industrial continua e a margem de segurança tornou-se muito menor. Se surgirem dificuldades importantes de oferta, os impactos poderão ser muito mais severos do que no passado. Mais uma vez, o fantasma continua rondando a silvicultura, apenas com uma nova aparência.

Mas talvez nenhum deles seja tão conhecido quanto um velho inimigo da silvicultura brasileira: a formiga.

Estima-se que, décadas atrás, milhares de hectares de florestas de eucalipto tenham sido comprometidos por seus ataques. Elas mobilizaram pesquisadores, empresas e fabricantes de produtos, transformando-se em um dos maiores desafios da silvicultura brasileira.

Hoje dispomos de muito mais conhecimento, tecnologias de monitoramento e métodos eficientes de controle.

Mesmo assim, basta conversar com profissionais de campo para perceber que esse velho inimigo continua firme e forte rondando as florestas. Talvez menos visível do que antes, mas certamente não menos faminto.

Ao longo da história, a silvicultura brasileira mostrou uma extraordinária capacidade de superar desafios.

Mas existe uma diferença importante entre o passado e o presente.

Quando surgia um grande problema, rapidamente todo o setor ficava sabendo. Empresas, pesquisadores, universidades e profissionais compartilhavam experiências, discutiam soluções e aprendiam juntos. Havia uma convivência técnica muito mais intensa e um permanente intercâmbio de informações.

Hoje a realidade mudou.

Os empreendimentos conversam menos entre si. As dificuldades, muitas vezes, permanecem restritas a quem as enfrenta. Os problemas deixam de circular, o conhecimento demora mais para se espalhar e, com isso, alguns fantasmas conseguem permanecer mais tempo escondidos.

Talvez essa seja a maior mudança de todas.

Os fantasmas da silvicultura continuam existindo. Mudam de roupa, mudam de endereço e mudam de intensidade, mas continuam rondando os plantios.

No passado, a força do setor estava também na rapidez com que esses fantasmas eram identificados e enfrentados coletivamente.

Hoje, quando cada um convive apenas com os seus próprios fantasmas, vale uma última reflexão:

– Será que estamos compartilhando os problemas com a mesma velocidade com que compartilhamos os sucessos?

Talvez os fantasmas da silvicultura façam parte da própria evolução da atividade.

Eles mudam de roupa, mudam de endereço e surgem em momentos diferentes.

O importante é que nunca deixemos de reconhecê-los enquanto ainda são apenas fantasmas.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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SUSTENTABILIDADE: PRIMEIRO A OBRA, DEPOIS A MOLDURA.

Recentemente fui convidado para visitar uma propriedade florestal e emitir uma opinião sobre a sustentabilidade do empreendimento.

Logo na chegada, o proprietário, Sr. Nicolau, explicou a razão do convite. Tudo começou após um comentário de sua filha:

— Pai, hoje não basta ter uma boa floresta. É preciso reunir indicadores sociais, ambientais e econômicos, informações sobre biodiversidade, recursos hídricos, governança, ESG, certificações e muitos outros parâmetros para comprovar a sustentabilidade do negócio. Se não tivermos essas informações, logo não vamos conseguir vender nossa madeira.

— Precisamos contratar um especialista para avaliar a sustentabilidade da fazenda.

A preocupação era sincera.

Saímos então para percorrer a propriedade.

Enquanto caminhávamos, o Sr. Nicolau ia mostrando, com orgulho, aquilo que considerava importante: florestas bem conduzidas, muitos anos de bons resultados, madeira comercializada regularmente, ausência de pragas e doenças, uma equipe estável, recursos naturais preservados, nascentes protegidas e água em abundância e uma grande diversidade de pássaros.

Depois de algum tempo, parou, olhou para mim e perguntou:

— Doutor, tudo conforme a legislação exige, afinal, o que falta para dizerem que esta fazenda é sustentável?

A resposta exige uma boa reflexão.

Nos últimos anos, a sustentabilidade passou a ser medida por um conjunto cada vez maior de indicadores, protocolos, certificações e relatórios. Todos eles são importantes e ajudam a tornar os empreendimentos mais transparentes e confiáveis.

Mas existe um cuidado que não podemos perder de vista: dedicar mais atenção à moldura do que à própria obra.

Ao abrir a porteira de uma fazenda, a sustentabilidade costuma apresentar seus primeiros sinais.

A floresta cresce bem? Continua produtiva? Os recursos naturais estão protegidos? As pessoas trabalham com segurança e respeito? A atividade gera renda e tem condições de permanecer ao longo do tempo?

Quando essas respostas são positivas, os fundamentos da sustentabilidade já estão presentes.

É justamente aí que indicadores, certificações e relatórios cumprem seu verdadeiro papel: organizar informações, demonstrar resultados e dar credibilidade ao empreendimento.

No fim da visita, apertei a mão do Sr. Nicolau e respondi:

— Acho que o senhor já tinha a resposta. Ela estava diante dos nossos olhos durante toda a caminhada. Agora, basta fazer com que ela também possa ser vista por quem observa a fazenda de fora.

Na volta para casa, fiquei pensando que, talvez, a sustentabilidade seja exatamente assim.

Primeiro ela acontece.Depois, ela é medida.

E, quase sempre, seus primeiros sinais aparecem muito antes dos relatórios. Basta abrir a porteira da fazenda.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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A PRODUTIVIDADE FLORESTAL TAMBÉM DEPENDE DO EXECUTOR

Durante uma conversa entre profissionais do setor florestal, surgiu uma pergunta interessante:

— Depois de tantos anos acompanhando a evolução da silvicultura brasileira, qual foi a maior mudança que aconteceu?

As respostas foram muitas. Lembraram-se os avanços da genética, da mecanização, da produção de mudas, das máquinas, dos sistemas de gestão, do monitoramento por satélite, dos drones, da inteligência artificial e de tantas outras ferramentas que revolucionaram a forma de planejar, monitorar e administrar as florestas.

Mas, depois de alguns instantes de reflexão, surgiu uma resposta diferente: talvez a maior transformação da silvicultura tenha sido a terceirização. Ela deixou de ser uma atividade complementar para se tornar protagonista da execução operacional, desde a produção de mudas até a formação, a colheita e o transporte da madeira.

Ao longo desse processo surgiram empresas altamente especializadas, muitas delas tornando-se referências pela competência técnica, pela qualidade dos serviços e pela capacidade de entregar resultados consistentes.

Essa transformação trouxe também uma mudança mais silenciosa: a forma de relacionamento entre contratantes e contratados.

No passado, os contratos existiam, mas eram fortalecidos pela confiança, pelo respeito, pela palavra empenhada, pelo diálogo permanente e pela responsabilidade compartilhada pelos resultados.

Com a evolução das organizações, vieram contratos mais completos, controles mais rigorosos e maior segurança jurídica. Foi um avanço importante e necessário. Entretanto, em muitos casos, as relações tornaram-se mais burocráticas e distantes, reduzindo o espaço para a construção conjunta de soluções e para o reconhecimento daqueles que fazem a diferença na execução das operações.

Os reflexos dessa mudança podem ser observados com facilidade no campo. Existem diferenças marcantes entre florestas submetidas aos mesmos materiais genéticos, aos mesmos projetos, aos mesmos insumos e às mesmas recomendações técnicas. Muitas vezes, a principal variável é apenas uma: quem executou o trabalho.

A explicação, quase sempre, está na competência das equipes, na qualidade da liderança, na organização operacional, no comprometimento das pessoas e na capacidade da empresa executora de transformar planejamento em resultados.

Essa constatação leva a uma reflexão importante: a produtividade das florestas também depende de quem as executa.

Mais do que contratar pelo menor preço, é fundamental identificar competência e valorizar empresas que investem continuamente na qualificação de suas equipes, na profissionalização dos processos, na segurança, na inovação e na busca permanente da qualidade. São essas empresas que transformam tecnologia em produtividade e planejamento em florestas de alto desempenho.

Felizmente, a própria silvicultura brasileira oferece excelentes exemplos desse caminho. Existem contratantes e empresas prestadoras que construíram relações duradouras, baseadas na confiança, no respeito, na transparência e no compromisso compartilhado com os resultados. Essas parcerias demonstram que é perfeitamente possível conciliar segurança jurídica, eficiência operacional e relações profissionais sólidas.

A silvicultura brasileira continuará evoluindo em tecnologia, mecanização, inteligência artificial e sistemas de gestão. Mas dificilmente alcançará todo o seu potencial enquanto não reconhecer, na mesma proporção, o valor de quem transforma projetos em florestas.

Os bons exemplos já existem. Reconhecê-los, fortalecê-los e fazer deles uma referência para todo o setor talvez seja uma das maiores oportunidades para aumentar a produtividade das florestas brasileiras. Quando competência e parceria caminham juntas, todos ganham: as empresas prestadoras de serviços, as empresas contratantes, os empreendimentos florestais e, principalmente, a própria silvicultura brasileira.

🌳Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br

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